Estudo demonstra potencial da agricultura sustentável como pilar de mitigação da crise climática

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A conversão de vegetação nativa em áreas agrícolas no Brasil consolidou, ao longo das últimas décadas, uma expressiva "dívida de carbono" nos solos. No entanto, este passivo ambiental não é uma sentença definitiva. Um estudo publicado na Nature Communications, intitulado Soil Carbon Debt from Land Use Change in Brazil, revela que essa perda é possível de ser recuperada.

Conduzido por pesquisadores da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ/USP), da Embrapa Agricultura Digital e do Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical da Universidade de São Paulo (CCARBON/USP), um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) apoiado pela FAPESP (2021/10573-4), a pesquisa demonstra que a adoção de sistemas de manejo sustentáveis pode não apenas mitigar as emissões, mas recuperar parte significativa do carbono perdido, posicionando o Brasil como um protagonista estratégico no enfrentamento das mudanças climáticas.

Com base em uma metanálise que reuniu 4.290 registros sobre estoques de carbono orgânico do solo nos seis biomas brasileiros, o estudo estima que a conversão de áreas naturais para a agricultura provocou uma perda acumulada de 1,40 ± 0,1 petagrama de carbono (Pg C) na camada de 0 a 30 centímetros do solo. Esse valor expressa a chamada dívida de carbono, ou seja, a quantidade de carbono que deixou de ser armazenada no solo após a substituição da vegetação nativa.

Para chegar a essa estimativa, os pesquisadores compararam áreas agrícolas e remanescentes de vegetação natural na Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga, Pampa e Pantanal. A análise também levou em conta como diferentes sistemas de manejo, as características de formação dos solos e as condições climáticas regionais influenciam a perda, a manutenção ou a recuperação dos estoques de carbono ao longo do tempo.

Um dos pontos centrais da pesquisa é a explicação de como a dívida de carbono se acumula. O estudo destaca que o clima e as características pedogenéticas são fatores determinantes. Solos que possuem naturalmente maiores estoques de carbono — geralmente localizados em regiões mais frias, úmidas ou com alta presença de argila e minerais que protegem a matéria orgânica — são os que sofrem as maiores perdas quando convertidos.

Isso ocorre quando práticas de manejo que envolvem o revolvimento mecânico (como a aragem e a gradagem) quebram os agregados do solo que protegiam o carbono. Com a ruptura dessas estruturas, o oxigênio penetra nas camadas internas e acelera a oxidação da matéria orgânica por microrganismos. O resultado é a rápida degradação do carbono, que é liberado para a atmosfera.

A pesquisa também identificou que o tempo desde a conversão é uma variável crítica. Os primeiros 15 anos após a substituição da vegetação nativa pela agricultura são os mais graves. É nesse período que ocorre a perda mais drástica e acelerada de carbono.

O estudo chama a atenção para o fato de que já existem estimativas da dívida de carbono associada à conversão de ecossistemas naturais no Brasil. No entanto, até o momento, essas análises haviam sido feitas de forma generalizada, sem considerar as especificidades de cada bioma. A principal inovação deste trabalho foi justamente a avaliação individualizada por biomas, o que permitiu revelar que a dívida de carbono no solo não se distribui de maneira homogênea pelo território brasileiro.

“O estudo teve como principal contribuição a estimativa da dívida de carbono no solo, interpretada como o potencial teórico de recarbonização dos solos agrícolas e como um indicativo do potencial para o mercado de carbono, além do estabelecimento da linha de base dos estoques de carbono orgânico em áreas nativas e agrícolas. Com base na elaboração de um banco de dados inédito sobre carbono orgânico no solo nos seis biomas brasileiros, o trabalho também evidenciou o potencial de práticas conservacionistas na recomposição do carbono perdido. Espera-se que esses resultados subsidiem a formulação de políticas públicas de mitigação climática no Brasil e orientem ações do setor privado, contribuindo para o direcionamento de estratégias de intervenção adaptadas às realidades regionais e para o cumprimento das metas climáticas do setor agropecuário”, conta João Marcos Villela, primeiro autor do trabalho, realizado durante o pós-doutorado na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ/USP) com bolsa da FAPESP.

Segundo os pesquisadores, essa heterogeneidade reflete a grande diversidade de solos, climas e formações vegetais do país. Biomas como a Mata Atlântica, por exemplo, apresentam elevado aporte de matéria orgânica ao solo, resultado da alta produtividade vegetal, e grande parte desse carbono é estocado. Ao contrário da Amazônia, que mesmo com o grande aporte de matéria orgânica, o clima favorece a decomposição, reduzindo a capacidade de estocagem. Já em outros biomas, como o Cerrado ou a Caatinga, a dinâmica do carbono no solo responde a combinações distintas de clima, textura do solo e histórico de uso da terra.

Apesar de evidenciar um problema ambiental, o estudo traz uma mensagem otimista. Os resultados indicam que a área agrícola brasileira concentra um elevado potencial de recarbonização do solo, capaz de transformar a agricultura em uma aliada à mitigação climática. De acordo com dados apresentados por Oliveira et al. (2022), citado no estudo, a recuperação de pastagens degradadas, por exemplo, apresenta potencial para recompor entre 14% e 23% dos estoques de carbono orgânico perdidos. Já sistemas mais diversificados, como a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), além do uso de plantas de cobertura e do plantio direto, mostraram-se capazes de reproduzir parte da dinâmica dos ecossistemas naturais, aumentando o aporte de resíduos vegetais e favorecendo o acúmulo de carbono no solo.

De acordo com as estimativas do estudo, a recarbonização de cerca de um terço do potencial total identificado seria suficiente para que o Brasil atingisse a meta de redução de 59% a 67% das emissões de gases de efeito estufa até 2035, estabelecida em sua nova Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC). Na prática, esse objetivo poderia ser alcançado ao se aproveitar aproximadamente 40% a 45% do potencial de recuperação da Mata Atlântica e no Cerrado, estimado em 3,8 Pg de CO₂ equivalente.

Segundo o professor Maurício Roberto Cherubin, diretor de pesquisa do CCARBON/USP, quantificar essa dívida foi essencial para revelar o potencial das áreas agrícolas.

“A principal contribuição do estudo foi revelar a oportunidade que existe na agricultura. Ao quantificar a dívida de carbono dos solos, conseguimos enxergar com mais clareza o potencial de recarbonização dos biomas brasileiros e as possibilidades reais de recuperação de áreas degradadas, mostrando que práticas sustentáveis podem transformar o solo em um aliado da produção e da mitigação climática.”

Esses resultados ganham ainda mais relevância quando consideramos a área total agrícola do país. Segundo dados do MapBiomas, cerca de 282,5 milhões de hectares, aproximadamente um terço do território nacional, são atualmente destinados à agricultura e à pecuária. O estudo mostra que, ao adotar práticas de manejo sustentável nessas áreas já convertidas, o Brasil pode avançar simultaneamente na produção de alimentos, na recuperação dos solos e no cumprimento de seus compromissos climáticos internacionais, sem necessidade de novos desmatamentos.

Para o diretor do CCARBON/USP, professor Carlos Eduardo Pellegrino Cerri, os resultados reforçam o papel da pesquisa para o desenvolvimento de políticas públicas.

“Quando a gente mapeia a lacuna de carbono no solo, fica mais fácil fortalecer programas como o ABC+, hoje RenovAgro. A informação ajuda a dar mais credibilidade aos créditos de carbono baseados no solo e identificar onde estão as melhores oportunidades de sequestro e restauração. Isso conecta a ciência às políticas públicas e ao mercado, e coloca o solo no centro da ação climática.”

Nesse cenário, o estudo reforça que não é necessário avançar sobre novas áreas de vegetação nativa para aumentar a produção agropecuária. O caminho apontado pelos pesquisadores é a intensificação das áreas já convertidas, por meio de práticas de manejo que recuperem o carbono do solo, aumentem a eficiência produtiva e ampliem a resiliência dos sistemas agrícolas frente às mudanças climáticas.

Os pesquisadores seguem atuando no desenvolvimento de soluções para uma agricultura mais sustentável, com o apoio do Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical da Universidade de São Paulo (CCARBON/USP).

Confira o artigo na íntegra em: https://doi.org/10.1038/s41467-026-68340-4

Texto: Mariana Pezzatte Pollo - Equipe de Disseminação - CCARBON/USP